segunda-feira, 5 de março de 2012
um quase-conto policial sobre o caso do lenço verde (ou de como enfeitar memórias)
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Barateando Midas*
Foi até a cozinha preparar o café. Na louça do dia anterior que sobrara na pia avistou o que viria a lhe assombrar pelo resto dia: dentro dum copo com água pela metade, uma barata. Semi-viva ou semi-morta, dependendo do ponto de vista.
Com as patas para cima, a barata ainda se debatia diante das gotas d'água que caiam ao abrir a torneira; lutava pelo que restava de vida, pelo sopro que lhe era tirado assim, injustamente.
Aquilo foi motivo suficiente para ela, que tinha asco à baratas, aceitar com menos culpa a procrastinação nossa de cada dia. E então adiou a fome, o café, a louça. Jogou o jogo do unicórnio no facebook até se dar conta de que não havia saída: chegaria a hora em que seria preciso enfrentar a barata. E a louça.
Mas nessa altura, embora tentasse se distrair e se enganar, a casa já estava impregnada de presença de barata.
Já imaginava que, ao pegar aquele copo em suas mãos, a barata voltaria à vida, cresceria dezessete vezes o seu tamanho natural, comeria-lhe um pedaço do dedo e as vísceras, e lutaria com ela até destruir toda a cozinha e, quiçá, também o resto da casa.
Olhava a pia e imaginava por onde mais a barata deveria ter andado com suas patas nojentas. Como barata não deixa rastros, teve certeza de que ela andara em tudo o que ali havia. E então tudo se tornou nojo e não-me-toque. Tudo estava impregnado do rastro e do ranço da tal barata.
Deu-se conta também de que, se tudo era barata, ela também fazia parte de tudo. Sua pele, seus cabelos, seus pelos, seu avesso... A barata certamente visitara-a em seu quarto durante a noite e percorrera todo o seu corpo; teria deixado digitais se as tivesse, mas provavelmente deixara lá coisa que o valha e talvez até algum gene mutante ou, quem sabe, a próxima geração de baratinhas.
Naquele dia, em seu corpo corria sangue de barata.
E era quase sempre assim quando algo fogia do seu controle e amortecia os ânimos.
Em seu fantástico mundo as baratas cresciam, tomavam proporções descabidas enquanto tomavam conta da casa, do corpo, da alma e se debatiam à espera de uma resposta menos descarada e disfarçadamente morna, apática e racional, menos tão completamente fingida e contida...
As baratas esperavam o dia em que tivessem, de fato, todo o tamanho e poder que lhes era atribuído enquanto ela ensaiava, com toda a minúcia e volúpia de quem espera nunca chegar, pra quando se sentisse - ou se soubesse - maior que as baratas imaginárias. E maior que as da vida real também.
*Midas é aquele rei a quem Dionísio deu o dom de transformar em ouro tudo o que ele tocasse e tal.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
tenho um urso com seu nome
às vezes é difícil, né? não estamos muito acostumados a lidar com o silêncio e quando ele constrange, logo sorteamos no saco de assuntos algo muito interessante para dizer.
uma situação que acho graça é o elogio às roupas e acessórios. talvez - e muito provavelmente - isso aconteça com mais frequência no universo feminino.
então pronto, você está linda e poderosa com aquela blusa que pertenceu a sua bisavó e um sapato que achou num brechó por R$2,00 no dia em que seu all star te deixou na mão numa dessas inundações de verão e que... enfim. até que alguém muito gentil reconhece que você está a-ha-zan-do, como se diz por aí, e te faz um elogio. observei que há, em casos como esse, duas saídas comuns: 1. você conta a super história emocionante cheia de sentimentalismo da sua blusa e do seu sapato; 2. você busca algo interessante no visual daquele que te elogia e elogia de volta com um sorriso sem graça.
digo isso porque eu já recorri às duas alternativas por não saber o que dizer. e por que não simplesmente receber e agradecer o elogio e continuar arrasando de boa?
pode ser que tudo bem, mas sempre me sinto tão boba quando conto as histórias das minhas vestes ou quando elogio de volta, mesmo sendo sincera!
mas até aí nada grave... piora um pouco quando inventamos falar sobre a guerra da coréia, janelas e gavetas achando que estamos supersalvando o diálogo de um silêncio sepulcral e torturante.
e aí que estamos no meio de uma festa e então aparece um cara sorridente, galante e todo cheio de gentilezas e então, aos descobrir o nome do sujeito, você abre a boca para dizer a ele que... você tem um urso com o nome dele, porque absolutamente nada melhor te ocorre naquele instante. e eu me pergunto: pra quê, né?
outro dia conheci uma senhora que disse a minha irmã ter uma cachorra com o nome dela e nos contou toda a trajetória da cachorra e tal. tudo bem ela contar, eu não me importei. e acho que também não me importaria se ela não tivesse contado, pois não saberia.
mas nao sei porque estou mesmo falando isso se prefiro imensas vezes que cada um fale o que for natural dizer ao invés de ficar forçando a barra para ser o que não é.
é que quando sou eu quem assume esse papel sempre me sinto muito desengonçada e desnecessária.
mas taí, descobri que há quem não se incomode com essas aleatoriedads ditas sem pensar e talvez até dê seus nomes aos meus próximos ursos, por que não? evito constrangimentos inefáveis, quiçá.
aliás, inefável é uma palavra bacana pra começar um diálogo. vamos falar sobre isso?
*inefável
i.ne.fá.vel
adj (lat ineffabile) Que não se pode exprimir por palavras.
porque não disse bom dia
eu sempre fui muito desconfiada com tudo e desconfio das pessoas na rua sempre que posso. até da minha sombra, se der uma brecha, eu to desconfiando...
mas essa minha tendência urbanóide esporadicamente entra em conflito com minha filosofia de vida de dar bom dia aos cavalos, aos cachorros, aos estranhos, às manhãs.
semana passada estive numa cidade pequenina e sai ansiosa pelas ruas para dar e receber bons dias. e foi muita gentileza que encontrei para alegrar meu coração.
acontece que dia desses eu estava andando pela minha rua e um homem, desses que vive a espreita de meninas e vestidos, me disse bom dia e eu não respondi. e ele então me chamou de mal educada e disse que não custava nada dizer bom dia...
aquilo me abalou um pouco. de fato, não custava. mesmo sabendo que aquele bom dia não era despretensioso nem desprovido de terceiras ou quartas intenções, não era, por assim dizer, de graça. isso não mudaria na bondade do dia, mudaria?
noutra ocasião, ainda no meu bairro, volto pra casa num domingo à noite. eis que na rua, como sempre mal iluminada, do meio da sombra uma voz me diz boa noite, sem que eu pudesse ver ou reconhecer quem o dizia.
o meu medo era saber se nessa situação o pior é ser mal educada por não responder ou responder e por isso estar dando mole, estar 'facinha', vadia ou seja lá o que for.
pode ser exagero ou pode ser que alguma veia feminista esteja a saltar de mim agora, mas me incomoda essa vulneravilidade a qual as mulheres estão eternamente sujeitas.
estamos sempre nessa berlinda de julgamentos e silêncios enquanto ao homem fica reservado esse confortável lugar de dizer e fazer o que quer, como quer, isento de qualquer constrangimento ou culpa.
não tá certo não poder dizer bom dia e boa noite de boa mesmo, sem maldade, na minha própria rua, está?
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
dá licença? (ou: não sinta pena porque escolhi ser professora)
Significa que dediquei cinco anos da minha vida para me licenciar em artes visuais. Significa que agora tenho licença para entrar numa sala de aula e assumir aquele posto terrível e temível de quem, historicamente, diz 'a verdade’ e a ‘ensina’.
Aí ta né, nesse meio de caminho é natural topar com muitas pessoas que querem saber se... mas, errh... bem, você vai dar aula mesmo? você pode trabalhar em museu também, não pode? Até houve alguns mais experientes no ramo que me alertaram... Tem certeza de que é isso que você quer pra sua vida? Você é muito nova! Ainda dá tempo de desistir... Como resposta eu sorria e na maioria das vezes não sentia muita disposição para continuar a conversa , buscava as palavras mais curtas pra fugir do constrangimento garantido à quem sai “cheirando à leite” do mundinho acadêmico e coloca os pés cheios de frescor, vigor e amor pra dar, dentro da sala dos professores.
Agora serei professora. Se as burocracias me permitirem, serei professora de artes da rede municipal de São Paulo ainda esse ano. E refazendo minha trajetória, reconheço que até aqui sempre foi uma dificuldade assumir essa idéia. Confesso e assumo o quanto isso me assusta, o quanto já de saída tenho medo de me tornar tudo aquilo que “condeno” no que vejo e de que a realidade sucumba minhas pequenas utopias. Confesso o quanto sempre me incomodei e me escondi da hostilidade alheia que julga essa opção como falta de opção.
Mas calma aí... Embora eu entenda que estou [que estamos, eu e mais muitos outros...] me colocando na linha de frente de uma batalha invisível entre instituições e relações de poder, sei que ninguém está me obrigando a isso. Escolhi assim porque... porque sim, ora bolas! Escolhi porque ainda acredito em alguma coisa e essa coisa não é de forma alguma a escola, nem tanto a arte, nem tanto os livros. Essa coisa em que eu teimo em acreditar são as pessoas.
Acalmem-se os bacharéis, professores de carreira e parentes que se preocupam comigo ou com outros como eu. Não estou assinando um tratado de insanidade ou demência. É verdade, com 24 anos sou nova. E continuarei sendo enquanto puder acreditar em algo. Eu posso "trabalhar em museu" também, eu posso mudar de idéia, eu posso o que eu quiser enquanto eu acreditar. Eu só não posso – e não quero -desistir agora, agora que cheguei até aqui.
Eu detesto escrever tendo a certeza da minha pieguice e ingenuidade, pura e besta. É sim pra reafirmar, creio que pra mim mesma, essa escolha que o mundo sempre insiste em diminuir e desvalorizar diante dos nossos olhos.
Estou licenciada. Estou licenciada e provo a minha existência com números em papéis. E entendo agora que não preciso de mais nenhuma aprovação. Então me dêem licença que eu quero passar com todo meu amor pra dar. É, eu quero tentar, me dá licença?
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
burocracias
A BUROCRACIA/1
Nos tempos da ditadura militar, em meados de 1973, um preso político uruguaio, Juan José Noueched, sofreu uma sanção de cinco dias: cinco dias sem visita nem recreio, cinco dias sem nada, por violação do regulamento. Do ponto de vista do capitão que aplicou a sanção, o regulamento não deixava margem de dúvida. O regulamento estabelecia claramente que os presos deviam caminhar em fila com as mãos nas costas. Noueched tinha sido castigado por estar com apenas uma das mãos nas costas.
Noueched era maneta. Tinha sido preso em duas etapa. Primeiro tinham prendido seu braço. Depois, ele. O braço caiu em Montevidéu. Noueched vinha escapando, correndo sem parar, quando o policial que o perseguia conseguiu agarrá-lo e gritou: "Teje preso!", e ficou com o braço na mão. O resto de Noueched caiu preso um ano e meio depois, em Paysandú.
Na cadeia, Noueched quis recuperar o braço perdido.
- Faça um requerimento - disseram a ele. Ele explicou que não tinha lápis:
- Faça um requerimento de lápis - disseram. Então passou a ter lápis, mas não tinha papel.
- Faça um requerimento de papel - disseram a ele. Quando finalmente teve lápis e papel, formulou seu requerimento de braço.
Tempos depois, responderam. Não era possível: o braço estava em outro expediente. Ele tinha sido processado pela justiça militar. O braço, pela justiça civil.
A BUROCRACIA/3
Sixto Martinez cumpriu serviço militar em um quartel de Sevilha.
No meio do pátio do quartel havia um banquinho. Junto ao banquinho, um soldado montava guarda. Ninguém sabia por que era necessário guardar o banquinho. A guarda se fazia porque se fazia, noite e dia, todas as noites, todos os dias, e de geração em geração os oficiais transmitiam a ordem e os soldados a obedeciam. Nunca ninguém duvidou, nunca ninguém perguntou. Se assim se fazia, e sempre se havia feito, por algum motivo seria.
E assim continuou a ser, até que alguém, não sei qual general ou coronel, quis saber a ordem original. Tiveram que revolver a fundo os arquivos. E depois de muito buscar, ficou-se sabendo. Havia trinta e três anos, dois meses e quatro dias, um oficial havia mandado montar guarda junto ao banquinho, que estava recém-pintado, para que não acontecesse de alguém sentar sobre a tinta fresca.
[O livro dos abraços, de Eduardo Galeano.]
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
tomara que seja mesmo
e aí que também quis entender de onde vem essa expressão tomara.
tomara, meu deus!, tomara...
me parece ser o pretérito mais-que-perfeito do verbo tomar. Algumas fontes googleanas sugerem que seja no sentido de tomar pra si, o que teria certa lógica se pensarmos que aquela hipótese, a possibilidade desejada - a ilusão? - seja tomada pra si, agarrada com unhas e dentes... ou ainda tomada pelo intermédio de deus, tomara, meu deus, para que interceda a nosso favor, para que ele a tome para si e assuma nossa causa.
tá bom, já adimito que dificilmente chegarei muito longe nesses devaneios a essa hora.
mas me pergunto, aproximadamente duas décadas depois, quantas coisas mais habitariam hoje esse mundo mais-que-perfeito das inluzões.
domingo, 25 de dezembro de 2011
quem sabe eu não aproveite a noite de natal para te perdoar - I
Mas ok. Deve haver mesmo algo de sincero para uma parcela da população, dentro desse espírito natalino. E tomara que haja mesmo... Eu só não o vejo, não o encontro pelas ruas por onde ando. Ou talvez eu não esteja olhando direito.
Nesses últimos dias, as madrugadas tem sido o momento em que tenho estado mais acordada do que nunca. E como tem feito muito calor, tomo banho antes de me deitar. A luz do banheiro está meio estragada e, na primeira noite, apagou sozinha durante o banho. E assim deixei ficar.
Nas noites que se seguiram já de propósito não a acendi. Escolhi ficar assim no breu com o silêncio interrompido pelo barulho da água caindo. E o tato tocando o azulejo gelado ao procurar a toalha.
Aos poucos percebo que meus olhos e meu corpo se acostumam com a ausência da luz. Ou talvez haja um momento exato em que alguém por aí acende uma luz distante que minimamente alcança meu banheiro, fazendo com que o branco da cortina e o contorno dos pássaros nela estampados se destaquem diante dos meus olhos que passam a reconhecer várias intensidades de escuridão.
Há tantas luzes a piscar nessa época que é bem provável que elas estejam fazendo com que eu não olhe nem veja direito o que existe pra ver. Mas sempre há tanta luz no mundo que não duvido que a escuridão estivesse também sempre ali, presente e despercebida.
Pode ser que meu amor de natal esteja no contratempo das luzes piscando.
Pode ser que as luzes pisquem pra não nos deixar esquecer de que há amor porque é dezembro.
Pode ser que não haja amor sincero no natal ou, ainda, que não haja amor sincero...
Pode ser...
E cada um escolhe qual a melhor forma de enfeitar e iluminar o seu natal.
Quem sabe eu até aproveite, no meu banho noturno dessa noite, para reparar de luz acesa o que vi na sinceridade do breu.
pra sentar e chorar
mas imagine a seguinte situação: você se senta num sofá ou numa poltrona ou numa cadeira fofinha ou num lugar que te permita reclinar a cabeça levemente para trás e apoiá-la, de preferência de forma confortável. aí tá, você senta e chora. algum desavisado ao olhar de fora pode até cofundir, achar que você está a sofrer. mas não precisa. basta sentar, reclinar a cabeça e chorar.
e aí que, se duas lágrimas sairem ao mesmo tempo uma de cada olho e cairem ambas na mesma velocidade, contornando seu rosto suavemente, chega um momento em que elas se encontram na sua nuca.
é, era só isso mesmo.
(...)
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre.
Itamar Assumpção - Milágrimas
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
guarde as panelas quando eu viajar
Conviver é viver junto, viver com. Nem sempre é fácil conciliar o pragmatismo de um, com a impaciência ou o cansaço do outro.
Lá, todo domingo à tardinha, depois do almoço que nunca sai antes das três horas, as panelas esfriam sobre o fogão. Quando anoitece, ele sempre pergunta : "você vai fazer marmita? porque vou guardar as panelas..." . Ela , inevitavelmente fica brava. Porque sempre tem que fazer as coisas na hora em que os outros querem? Aquela hora era, para ela, a hora de ver e domingo acabar. Pensaria depois na marmita da segunda-feira. Depois.
Toda semana é assim.
Às vezes ele cede, e espera o domingo dela acabar para guardar as panelas. Noutras, é ela quem faz a marmita mais cedo porque sabe que será mais trabalhoso tirá-las e tornar a guardá-las.
Naquela semana ele viajou. Quando anoiteceu no domingo, ela logo se adiantou em fazer a marmita, já que não havia ninguém para apressá-la. Em seguida guardou as panelas e sentiu falta de alguém que o fizesse e do alguém que o fazia sempre, mas nem se lembrou de como aquilo era normalmente irritante.
Conviver é viver junto, é comceder. Viver junto é estar com mesmo que apesar de.
domingo, 16 de outubro de 2011
para não esquecer do café (ou meu deus minúsculo)
E quando, por descuido, me vi pela segunda vez no ano apartada do meu aparelho telefônico móvel, me perguntei se era apenas mais um dia torto na vida ou se seria deus um cara capitalista que julgava já estar na hora de trocar meu humilde aparelho por um outro que fizesse café e levasse as crianças à escola e coisa e tal.
Não sei dizer se por ainda haver pessoas honestas no mundo, ou se aparelhos ‘humildes’ são mesmo desinteressantes, se deus não é capitalista ou simplesmente não quer que eu deixe de saber fazer café. O fato é que, inacreditavelmente - e de novo - pude recuperar o tal aparelho.
Diante da necessidade de me deslocar até o fim do mundo para reavê-lo, imaginei como seria se acontecesse assim, de brinde, de encontrar um novo amor nessa ocasião. Esse encontro justificaria meu descuido com o cuidado que haveria de ter para olhar o guardião do meu aparelho, que eu já sabia se chamar Willian, não sei se com um ou dois L ou se com M ou N no final.
Seria assim: eu chegaria lá na República do Líbano no numero tal, encontraria Willian lendo Neruda ou Leminski, pegaria meu celular, conversaria um pouco com ele sobre poesia, honestidade e transporte e, quando eu já tivesse me virado para sair, ele me chamaria de volta dizendo que tinha um par de ingressos sobrando prum show do Ney Matogrosso. E pronto.
Acredito que, ao imaginar isso, imediatamente anulei as chances de que acontecesse assim um amor ao resgatar o celular. Acho que a vida exclui as possibilidades premeditadas.
Aconteceu então que, imprevisivelmente dois dias depois, deus me tomou o celular pela terceira vez e mais uma vez sem me dar amor em troca. Como se não bastasse, dessa vez foi o celular e mais todas as coisas que carrego todos os dias na mochila, roubada por dois brutamontes violentos que me ameaçaram com alguma coisa que poderia ser uma faca, mas que não esperei para ter certeza.
Se não é a lógica capitalista, queria saber qual seria então a lógica adotada por deus que, com exceção do chip do celular, do lencinho verde preferido e da sanduicheira, mais uma vez devolveu todos os meus pertences. Devolveu não sem antes me deixar uma madrugada assinando papéis, reconhecendo ladrões, contando diversas vezes a mesma história, dando us roles de camburão e expondo minha vida no balcão da delegacia para que fosse tudo minuciosamente registrado por policiais que, com muita naturalidade, manuseavam meu creme de pêssego para as mãos, desodorante, uniforme, diário, moedas, pedrinha da sorte, tudo!, com toda intimidade e autoridade possiveis.
Não gosto de café. Não me lembro se alguma vez na vida já fiz e, se fiz, não sei qual gosto tem o meu café porque, como já disse, não gosto e não bebo. Ainda assim, sei como se faz e acho muito elegante tomar café. Tem um lance meio socializador, tem um charme no aroma e na fumacinha, na espuma que fica na colher ao misturar o açucar. Talvez Willian me convidasse para um café depois do show do Ney Matogrosso, talvez muito provavelmente eu quebrasse o encanto dizendo que não gosto de café.
Mas diversas vezes pensei que poderia trocar meu celular por um mais modernoso que tire fotos e me permita acessar minha vida virtual superinteressante enquanto passo longos momentos no transporte publico e que - por que não? - saiba fazer café e muitas outras coisas que ainda irão inventar.
Resisto a essa tendência de sempre querer mais mesmo quando o mais é o café que não bebo. Começo a pensar que a lógica desse deus não é a lógica mercadológica. E se falo nele assim em minúsculo é porque não me refiro ao Deus cristão, ao Deus gigante e onipresente que, com todo respeito, não me cabe. Meu deus é mesmo minúsculo, não tem nome próprio nem nada que o designe com uma letra maior. Meu deus é tão pequeno que não pode me vigiar e, por isso, escondo alguns segredos dele.
E aí que nessas horas de procrastinação induzida por infortúnios urbanos posso inventá-lo para exteriorizar a responsabilidade. Posso fugir e fingir, me isentar da freqüência que me coloco mais propícia a determinados tipos de acontecimentos (ou desacontecimentos, no caso do meu desencontro amoroso com Willian).
E aí que se desaprendo o café, já não culpo meu pequeno deus por isso. Já não o culpo porque o desaprendo também junto com o café, já não preciso de água quente nem filtro. Talvez ainda desaprenda a premeditar amores ou invente um novo motivo em mim pra mim e, quiçá, não leve mais crianças fictícias à escola.
sábado, 15 de outubro de 2011
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
o sol das onze no telhado ao lado
A escada de incêndio do quinto andar era um lugar que eu costumava frequentar quando me dedicava às aulas de violão, no começo do ano. O vento associado ao meu descompromisso em organizar as partituras e papéis, e os ruídos citadinos ao meu toque nada convicto ou convincente nas cordas, não eram exatamente favoráveis a minha tentativa de seguir fielmente a “lista de coisa para aprender (bem) antes de morrer”, que elaborei na virada do ano. Ainda assim, gostava de estar ali porque dali podia ver o mundo de longe sem que ninguém me visse ou ouvisse. Era pra estar em silêncio que tentava ouvir o mundo.
Acontece que, quando dei por mim, as coisas com as quais me comprometi e as obrigações para concluir o curso, adiaram esse importante item da minha lista e, consequentemente, diminuiu a frequência das minhas idas às escadas do quinto andar. Depois, um acontecimento inóspito me fez evitar voltar àquele lugar para não me deparar com recordações que não queria ter... E aí que tal acontecimento também serviu de conforto e consolo para minha falta de compromisso com as coisas que propus a mim, alheias à motivações externas. É, a gente sempre se consola...
Nunca mais o vento seco, as luzes a acender no cair da noite enquanto o céu desbota, nunca mais a insistência naquelas notas surdas tentando compor alguma melodia com as businas e barulhos dos motores que movem tudo ao redor.
Até que, semana passada, me senti pronta outra vez: voltei às escadas de incêndio do quinto andar num horário inédito. Onze horas, o mundo se prepara pro almoço porque assim ficou combinada a nossa hora de ter fome. Eu chegaria da escola, tiraria os tênis e trocaria o uniforme pela camiseta surrada verde limão de ficar em casa, assistiria tarzan e os últimos desenhos que passavam antes da programação de receitas e fofocas que tinham inicio logo imediatamente após o almoço, enquanto minha vó fritava as batatas e umedecia o resto de pão do café para os pardais que, assim como nós, estavam em horário de almoço. É esse o clima do sol quente das onze horas no mundo: a vida em suspenso, as rosas e as flor-de-lis no jardim esturricando sedentas enquanto aguardam ansiosas pela sombra que viria só depois que se consumasse o ato de almoçar.
E me vendo novamente ali, no quinto andar, lembrei que escadas de incêndio não abrem pelo lado de fora e, para ser prático, é necessário não deixar que ela se bata e se feche. Não tendo nada nas mãos, elegi um pé do meu all star como a garantia do meu retorno ao mundo de dentro. Então, com um pé descalço e o outro não, senti este isolado pelo solado e com aquele senti o chão. Olhei a cidade brilhando ao sol das onze, metade sentindo e a outra metade não.
Os telhados com suas telhas de barro contrastavam com outros recobertos por alguma coisa que brilhava muito (coisas que não sei nomear: podia ser alumínio, podia ser caixa de leite do avesso... mas o que interessa é que brilhava), e essa coisa que já devia brilhar noutras circunstâncias, tendia a minha cegueira ao sol das onze.
Nessa hora pensei com a minha metade calçada que alguém ali dentro daquela casa cujo telhado me cegava, preparava seu almoço, escorria as batatas antes de fritar, dava pão molhado pro passarinho e desconhecia o fato de que seu telhado cegava alguém. Minha metade descalça, roçando o pé na textura da escada, me perguntou se, naquele mesmo instante, o meu telhado não estaria também a agredir ou cegar alguém.
Pro próximo ano vou acrescentar a minha lista de tarefas pessoais concluir [ou ao menos não interromper, já que muitas coisas serão pra sempre inconclusas] as coisas que começo, por uma vontade que é minha. Concluir por exemplo o que começo a escrever, sem pressa e com palavras que escolho.
Mas ainda não é o caso, e ainda agora ofusco meus olhos com meu próprio telhado e já não tenho um pé descalço e já não sou nem metade nem meio termo e tampouco acredito na divisão do mundo em pedaços distintos de sentir.
Ainda assim, já que ainda não virou o ano, posso encarregar palavras de outros o sentido que eu não soube dar...
Então... traduzir uma parte na outra parte -que é uma questão de vida ou morte - será arte?*
* Ferreira Gullar, Traduzir-se.

