Talvez seja mesmo motivo de vergonha: aos 21 anos de idade, a extamente 21 anos e 4 meses de vida, abri minha primeira conta no banco. Até antes de ontem eu era daquela turma que prefere guardar dinheiro debaixo do colchão e que vê o banco como um bicho papão.
Depois de meio hora esperando pra ser atendida, depois de mil assinaturas e contratos, depois de relutar contra o cartão de credíto, talão de cheque e título de capitalização e depois da fila pra depositar meus primeiros miseros trocados, com um único caixa funcionando e atendendo, logicamente, os milhares de idosos, centenas de pessoas sem braço e mulheres com criança de colo antes de mim... Tenho uma conta no banco!
E enfim, eu existo. Pago taxas, sou uma pessoa física cadastrada. Sou racionalmente expressa numa ordem numérica de brasileiros e afins, de contas universitárias, de usuários de telefonia móvel tim, de cidadãos votantes. Na Universidade Estadual Paulista sou 2070043 e na biblioteca 202100000289. Meu Registo Geral é 33.020.836-7, na Receita federal sou 372.998.097-90, Minha agência do banco é 0955, conta 237-9, senha ******. *
Tantos números que sei de cor e agora percebo como sou tanta coisa e não sabia! Sem eles não voto e não exerço minha cidadania, não pago meio entrada no cinema, não posso me declarar isenta no imposto de renda nem pegar livros emprestados.
Que graça tem ser criança e ter só um papelzinho tamanho a4 pra certificar ao mundo de que você nasceu?
É mais uma implicanciazinha azeda minha, eu sei... Mas não queria ter que provar que existo. Não queria saber de cor o que eu sou.
Estou farta de números! Queria voltar invisível pra dentro da barriga da mamãe...
* esses dados, obviamente, não são verdadeiros.
2 comentários:
Marília, Marília, são os rituais de passagem. Chatos, às vezes pesados, mas fazem parte. E, pensando, tudo sem sua graça.
As duas horas e meia na fila do banco lhe valeram, no mínimo, um post e uma lembrança para o passaporte capitalista. ha! beijão
é né, vou me consolar imaginando que daqui uns 20 anos, sendo otimista, serei cliente especial e, além de nao precisar de filas me ofereceão cafezinho ou chá.
vi uma frase do guimarães rosa que decifra um pouco do que sinto nessas horas:
a gente cresce sem saber para onde
é por aí.
beijo.
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